Cenários
Não foi exatamente uma surpresa, pois Donald Trump já vinha ameaçando fazer isso há alguns dias. No entanto, na noite da segunda-feira (25) ele foi além da ameaça e disse que vai demitir Lisa Cook, uma das governadoras do Federal Reserve (FED), o banco central americano.
O FED tem uma organização muito diferente do Banco Central do Brasil. Por lá existem divisões regionais, que fazem parte do Sistema da Reserva Federal. Os presidentes desses FEDs regionais participam das discussões sobre os juros, embora nem todos votem. Além deles, o FED tem “governadores”, o equivalente aos diretores do BC brasileiro.
Lisa Cook é um desses governadores. Indicada por Joseph Biden em 2022, ela é a primeira afro americana a ocupar um cargo tão elevado no FED. Doutora em economia pela universidade de Michigan, ela foi orientanda pelo economista Barry Eichengreen, especialista em crises financeiras e que tem entre seus admiradores o prêmio Nobel Paul Krugman.
Apesar de todo o currículo de Cook, Trump não hesitou em servir-se de uma acusação capenga de fraude para justificar o pedido de demissão da governadora do FED. O assunto com certeza vai parar nos tribunais, o que deve trazer mais um componente de instabilidade para o mercado.
A demissão não é sumária e precisa ser autorizada. O presidente americano só pode demitir um diretor do FED se houver uma causa explícita: má conduta grave, negligência no dever ou incapacidade de desempenhar a função, não divergências políticas.
Segundo Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa Investimentos, “isso representa uma interferência na independência do FED, ampliando o receio de que ações semelhantes possam ser tomadas em relação a outros membros”.
A alegação de fraude hipotecária contra Cook foi levantada pelo diretor da Agência Federal de Financiamento Habitacional, Bill Pulte. Não é a primeira vez que Pulte promove acusações nesse sentido, e seu modus operandi não é muito ortodoxo, tendo sido acusado diversas vezes de prevaricação.
Um dos pilares da previsibilidade da economia americana é a convicção, por parte de consumidores, empresários e investidores, que o FED vai fazer seu trabalho difícil de manter a inflação sob controle no melhor mercado de trabalho possível. Ao contrário do BC brasileiro, que se preocupa apenas com a inflação, o mandato do FED é duplo. Ao ameaçar intervir no FED, Trump coloca um componente de incerteza que vai elevar o prêmio de risco.
Sanchez avalia que “Trump pode até buscar artificialmente uma redução dos juros americanos, mas sabe-se que isso provocará uma elevação da inclinação da curva de juros e restrição das condições financeiras, a despeito do afrouxamento monetário”.
FONTE: MONEYTIMES
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